COLUNA DA SEMANA | Nós iremos achar o tom

Aranãs FM

Quem andou pelas ruas logo cedo já percebeu que o sábado amanheceu com outra cara. Existe uma mudança simples, mas inegável, pairando no ar. Não é preciso ser um fanático pelas arquibancadas para notar o verde e amarelo tomando conta do ambiente e o assunto quase único que domina as filas dos supermercados. Até mesmo aquela pessoa que passa o ano inteiro sem saber o que é um impedimento ou de quem é a liderança do campeonato, de repente, se pega perguntando ansiosa pelo horário da partida. Neste sábado, quando a bola rolar para a nossa estreia na Copa do Mundo de 2026, o Brasil fará aquilo que faz de melhor: esquecerá momentaneamente as suas fraturas para voltar a ser, em uníssono, um único batimento cardíaco.

Faz exatamente vinte e quatro anos que não sabemos o que é o peso de erguer a taça dourada. Uma geração inteira de brasileiros nasceu, cresceu e chegou à vida adulta conhecendo apenas a frustração das eliminações. Essa juventude acompanhou o tropeço na Alemanha em 2006, a queda na África do Sul, o colapso inexplicável em casa no ano de 2014 e as dolorosas escorregadas na Rússia e no Catar. O retrospecto recente é indigesto, sem dúvida. Contudo, a nossa identidade foi forjada sob a fundação sólida de 58, 62, 70, 94 e 2002. Nós somos os únicos que, por cinco vezes, pararam o planeta. Na geografia dos nossos sentimentos, a memória do triunfo é o antídoto mais eficaz contra o pessimismo crônico.

Não é à toa que outras nações nos olham com uma mistura de fascínio e incompreensão. Eles tentam decifrar a nossa ginga, mas o que os estrangeiros realmente invejam, no fundo, não é apenas a nossa habilidade com uma bola em campo. O mundo lá fora sonha em ter a nossa espantosa capacidade de reinvenção. O brasileiro cai, sacode a poeira e, no dia seguinte, está de pé, sorrindo e inventando saídas para uma realidade que, muitas vezes, beira o absurdo. A nossa resiliência teimosa é o nosso maior ato de coragem.

Ganhando ou perdendo neste Mundial, o apito final do árbitro não revoga a nossa certidão de nascimento. Continuaremos sendo a mesma gente de fibra que acorda de madrugada para construir o futuro no suor do próprio esforço. A glória do esporte é transitória, mas o orgulho de pertencer a essa Pátria Amada precisa ser inabalável, imune a qualquer placar adverso.

E se, por vezes, a nossa harmonia social pareceu desafinada pelas crises e pelas pressões do dia a dia de ser brasileiro, o recomeço de um ciclo em campo nos lembra que é sempre possível reajustar os instrumentos. Nós iremos achar o tom. Buscar aquele acorde com um lindo som, para fazer com que fique bom, outra vez, o nosso cantar. Olhe para nós, outra vez no ar, de peito aberto e esperança renovada, prontos para sermos felizes de novo. Porque a vida, meus amigos e amigas, não aceita ponto final diante das rasteiras. Independentemente do que aconteça, ser brasileiro me ensinou que o show sempre vai continuar.

Por Luiz Fernando Barbosa

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