COLUNA SEMANAL | Quem são nossas influências?

Aranãs FM

Tenho uma lembrança muito específica do quinto ano na escola. A professora dividiu entre os alunos os capítulos de um livro que a memória agora há de me trair por não me deixar lembrar qual era. Cada um precisava ler um trecho em voz alta para a turma. Enquanto os colegas liam, eu ficava acompanhando o texto, tentando descobrir exatamente qual seria o meu parágrafo. Contava quantos ainda faltavam até chegar minha vez, encontrava minha parte e começava a ler baixinho antes, repetindo várias vezes quase como um ensaio.

Aquele pequeno ritual acabava fazendo muito mais do que me preparar para ler em voz alta. Enquanto repetia o texto tantas vezes, eu começava a compreender melhor o que estava sendo contado ali. Sem perceber, eu estava aprendendo algo que carregaria comigo muitos anos depois: palavras têm força. Aquele incentivo tão básico à leitura fez daqueles professores, que me estendiam um livro, as minhas primeiras referências. As minhas primeiras influências. Se hoje eu ganho a vida me comunicando, a semente foi plantada por eles.

Essas colunas que venho escrevendo ultimamente me fizeram pensar muito nisso. Sobre como algumas pessoas mudam a nossa vida sem sequer imaginarem o tamanho do impacto que tiveram. E foi justamente lembrando dessa história que comecei a pensar sobre quem tem influenciado as pessoas hoje.

Durante muito tempo, nossas referências surgiam da convivência. Eram professores, pais, líderes religiosos, médicos, amigos e vizinhos. Gente que muitas vezes ensinava sem perceber e que quase nunca se preocupava com quantas pessoas alcançavam. Quando a gente tira os olhos da tela do celular e volta a olhar para a calçada, percebe que quem realmente ajuda a moldar nosso caráter quase nunca são os influencers distantes, os das redes sociais, mas as pessoas comuns.

São os de dentro de casa, mas também o comerciante da esquina que conhece os clientes pelo nome, o colega de trabalho que ensina a profissão, ou aquela pessoa que luta por melhorias na cidade sem holofotes. Talvez o problema do nosso tempo seja justamente termos começado a confundir visibilidade com importância.

Hoje, boa parte das nossas referências vem das telas. As redes sociais criaram uma lógica em que alcance parece valer mais do que exemplo, e em que a quantidade de seguidores virou sinônimo de autoridade. Influenciadores passaram a ocupar espaços que antes pertenciam a pessoas admiradas pela sabedoria, pela experiência e pela maneira como conduziam a própria vida. O problema é que nem sempre influência e responsabilidade caminham juntas.

Um exemplo recente basta olhar para o esporte, que sempre foi a grande fábrica de heróis do nosso país. A convocação para o maior torneio do mundo é anunciada. O país inteiro comenta. Milhões de jovens acompanham aquele momento sonhando um dia ocupar o mesmo lugar. E qual é a primeira mensagem entregue pelo maior ídolo atual do futebol brasileiro? Não uma fala sobre esforço, disciplina ou responsabilidade. O primeiro recado é uma publicidade de apostas esportivas. O craque virou garoto-propaganda do cassino.

E talvez o mais preocupante nem seja o acontecimento em si, mas a naturalidade com que o desperdício dessa influência passou a ser encarado. O Brasil se tornou recentemente o quinto maior mercado de apostas do mundo, movimentando bilhões de reais todos os anos. Junto desse crescimento, cresce também o número de famílias endividadas, brasileiros viciados. Se a influência fosse levada a sério, como uma ferramenta para o bem, esses mesmos ídolos estariam usando sua voz para alertar, para incentivar o estudo, o esporte e o trabalho honesto. Em vez de erguer as pessoas, os influencers modernos muitas vezes apenas vendem um bilhete para o abismo.

A influência virou negócio. Virou mercado. Virou disputa permanente por atenção. Cada postagem precisa vender alguma coisa. Cada vídeo precisa gerar alcance. Cada assunto precisa virar engajamento. E nessa corrida por visibilidade, corremos o risco de esquecer que as pessoas que realmente mudam nossa vida quase nunca são as que mais aparecem na nossa tela.

A liberdade de escolher quem admiramos continua sendo nossa, mas precisamos fazer uma faxina urgente nas nossas telas. Precisamos resgatar aquela velha máxima de que sucesso não é o que se exibe, mas o que se sustenta quando ninguém está olhando.

Aquela professora talvez nunca tenha imaginado que uma simples leitura em voz alta pudesse me atravessar por tantos anos. Talvez ela nem se lembre daquele menino ansioso ensaiando um parágrafo enquanto esperava a própria vez de ler. Mas tem gente que muda o mundo assim: sem palco, sem viralizar, sem milhões de seguidores. Apenas ocupando pequenos espaços na vida da gente e plantando ali alguma coisa que vai crescer depois.

Enquanto acreditamos estar apenas consumindo entretenimento, muitas vezes estamos absorvendo valores, desejos e referências sem perceber. É preciso ficar atento a quem admiramos e seguimos. Porque se a sua referência de vida é alguém que precisa que você perca dinheiro para que ele fique mais rico, talvez seja a hora de trocar de ídolo.

Afinal, quem realmente pode mudar o nosso mundo para melhor tem a decência de ajudar você a ensaiar o seu melhor parágrafo.

Por Luiz Fernando Barbosa 

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