
Há dedicatórias que são apenas uma gentileza. Outras, porém, são um compromisso. Quando abri o livro Notícias Históricas de Capelinha: Introdução à Educação Patrimonial, li a frase que a professora e historiadora capelinhense Joelma Aparecida Campos Brandão escreveu de próprio punho: “Para que a nossa história continue viva nas próximas gerações.” Fechei o livro por alguns segundos antes mesmo de começar a leitura. Percebi que aquela não era apenas uma mensagem para quem recebeu o exemplar. Era um chamado dirigido a todos nós.
Esse chamado me fez lembrar de Santo Agostinho, um dos pensadores mais profundos e influentes da nossa história, que eternizou uma premissa simples, porém irrefutável: “Só se ama aquilo que se conhece”. Em seus escritos, de forma muito especial na obra Confissões, o filósofo se debruça intensamente sobre o peso da memória e a passagem do tempo. Ele compara a nossa capacidade de lembrar a um vasto e silencioso palácio, cheio de corredores e salões onde guardamos as imagens e as vivências do passado. Para ele, a memória não é um depósito esquecido, mas o alicerce fundamental sobre o qual construímos a nossa identidade. O hoje só ganha um sentido completo e verdadeiro quando está firmemente enraizado naquilo que já vivemos. A dedicatória da professora Joelma é, no fundo, a mesma urgência apontada por Agostinho: a necessidade de reconhecermos a importância do chão que pisamos.
Joelma é graduada em História, pós-graduada em Práticas Pedagógicas, especialista em História e Cultura Afro-Brasileira e possui uma atuação forte, sensível e transformadora na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Mergulhar nas páginas do seu trabalho é redescobrir a nossa história. A obra nos coloca diante de documentos fascinantes, como um mapa elaborado em 1822, que já mapeava as rotas da nossa região passando pelas antigas fazendas de Estiva, Gangorra e Prata, além de nos lembrar que, antes de sermos a Capelinha de hoje, este nosso pedaço de chão atendia pelo nome de Arraial da Graça.
É um convite irrecusável a uma viagem no tempo, devolvendo aos capelinhenses a sua própria certidão de nascimento ao detalhar os caminhos, as lutas e as formações sociais que nos trouxeram até aqui.
Ao observar essa riqueza imensa de detalhes sobre a nossa formação, foi inevitável me questionar: quanto sabemos sobre a cidade onde moramos? Vivemos uma era dominada por telas rápidas e tendências digitais, em que o olhar das novas gerações está quase sempre voltado para o que acontece do lado de fora. Não há problema em conhecer o mundo, o problema é fazê-lo sem antes conhecer a própria casa. Aos poucos, corremos o risco de trocar o sentimento de pertencimento por uma curiosidade permanente sobre tudo o que está distante, como se aquilo que vem de fora fosse sempre mais interessante do que a história escrita aqui. É justamente nesse cenário que obras como a de Joelma cumprem um papel indispensável: elas nos fazem voltar os olhos para o lugar de onde viemos.
Fico daqui imaginando quantos adolescentes passam diariamente pela Praça do Povo, pela igreja Matriz ou pelas ruas do centro sem imaginar que aquele mesmo espaço já foi o antigo Arraial da Graça, onde há mais de uma centena de anos se casaram Joviana Barbosa Otoni e Horácio Otoni, eternizados no livro, que escreveram parte da história e que hoje quase ninguém conhece. Não porque lhes falte curiosidade, mas porque poucas vezes alguém lhes contou essa história. E, quando a história deixa de ser contada, o pertencimento vai cedendo lugar à indiferença.
A mensagem dita e escrita por Joelma, “Capelinha é um território educativo”, precisa alcançar cada morador. Que esta obra seja, como a própria autora deseja, uma porta de entrada para descobrirmos a cidade, um motivo para valorizá-la e um compromisso para preservá-la. O nosso município é um acervo vivo, repleto de memórias que esperam por quem esteja disposto a conhecê-las.
Saí daquele lançamento convencido de que conhecer Capelinha é uma forma de cuidar dela. E que o maior elogio que podemos fazer a uma obra como esta não é apenas comprá-la ou colocá-la na estante. É lê-la, compartilhá-la e deixá-la circular de mão em mão, para que outras pessoas também descubram as próprias raízes. Afinal, uma cidade não permanece viva apenas pelas ruas que constrói, mas pelas memórias que decide preservar. No fim das contas, ninguém protege aquilo que desconhece. Mas quem conhece a história do lugar onde vive dificilmente deixa de amar o chão que pisa. E, enquanto houver quem a conte e quem a escute, a história de Capelinha continuará viva, muito além do tempo.
Por Luiz Fernando Barbosa | Imagens: Sebastián Silva/Joelma Brandão











