
Há homens e mulheres que não passam pela história de uma cidade em vão. Eles ajudam a construir a sua identidade. Quando Raimundo Alves Soier, o Dão Soier, ajudou a idealizar a primeira Festa do Capelinhense Ausente, em 1987, a proposta era reunir amigos, familiares e conterrâneos durante alguns dias de julho. O que talvez nem ele, nem o então prefeito Seu Mingo, a dona Neide Monteiro, o Padre Pedro, o Toia e tantas outras pessoas que abraçaram aquele projeto pudessem imaginar era que aquela iniciativa se transformaria em uma tradição capaz de fazer milhares de pessoas reorganizarem as férias, cruzarem estradas e percorrerem quilômetros apenas para voltar a Capelinha. Quase quatro décadas depois, o principal significado da festa permanece o mesmo: reunir quem nunca deixou de pertencer a esta terra, recebendo aqueles que vivem longe e oferecendo, também a quem permaneceu aqui, a oportunidade de reencontrar suas raízes, rever pessoas queridas e redescobrir a cidade que faz parte da sua própria história.
Talvez a ideia tenha dado tão certo porque ela nunca foi apenas uma festa. Na verdade, ela traduz uma característica que acompanha Capelinha desde os seus primeiros anos. O professor José Carlos Machado lembra que, em 1817, quando o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire passou pelo então povoado da Senhora da Graça da Capelinha, registrou a hospitalidade dos moradores como uma das primeiras impressões que levou daqui. Mais de duzentos anos se passaram. A cidade cresceu e viu muitos de seus filhos seguirem caminhos diferentes, mas preservou essa capacidade de acolher. A Festa do Capelinhense Ausente nada mais é do que a maior expressão dessa característica.
Essa hospitalidade não se limitou à forma como Capelinha recebe quem chega. Ela também ajudou a moldar o jeito de ser do capelinhense. Esteja vivendo aqui ou em qualquer outro lugar do mundo, o capelinhense parece manter uma ligação difícil de explicar com a cidade onde cresceu. Muitos partiram em busca de estudo, trabalho e novas oportunidades. Outros permaneceram e ajudaram a construir a Capelinha que conhecemos hoje. Mas, de uma forma ou de outra, todos compartilham a mesma origem. Ouso dizer que ser capelinhense vai além do lugar onde se nasceu. É um traço de personalidade, uma forma de enxergar a própria terra e de carregar consigo um sentimento de pertencimento que dificilmente o tempo ou a distância conseguem apagar.
A história conta que a primeira edição da Festa do Capelinhense Ausente aconteceu nos dias 17, 18 e 19 de julho de 1987. Mas quem observa o cartaz daquela primeira edição percebe que a proposta ia muito além dos shows. Havia teatro, apresentações culturais, torneios esportivos, seresta, violeiros, exposição fotográfica e baile. Era uma programação pensada para que as pessoas permanecessem na cidade, ocupassem os espaços públicos e, principalmente, voltassem a conviver umas com as outras. A maior atração nunca esteve no palco. Sempre foi o reencontro.
Com o passar dos anos, a festa cresceu junto com Capelinha. A partir de 1997, sob a produção de Tim Soier, sobrinho de Dão Soier, o evento iniciou uma nova fase. O parque ainda era de terra batida, os bares eram montados provisoriamente com madeira de eucalipto e até o aeroporto da cidade era de terra. Mesmo assim, a organização decidiu sonhar grande. Foi a partir desse período que o palco da Festa do Capelinhense Ausente passou a receber artistas como Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano, Skank, Biquini Cavadão, Alceu Valença, O Rappa, Asa de Águia e tantos outros nomes da música brasileira, consolidando o evento como uma das maiores festas populares do interior de Minas Gerais.
Ao longo dos anos, ela continuou passando por diferentes mãos. Cada administração, cada comissão organizadora, cada patrocinador, cada comerciante, cada artista e cada voluntário deixou a sua contribuição. Uns ampliaram a estrutura, outros profissionalizaram a organização, trouxeram novos formatos, novos parceiros e grandes atrações nacionais. Cada um deixou sua marca e escreveu um capítulo dessa história à sua maneira. O tempo mudou a festa, mas nunca mudou a razão pela qual ela foi criada.
Talvez seja justamente por isso que o slogan criado para a festa continue fazendo tanto sentido. “É hora de voltar para casa” nunca foi apenas um convite para quem mora longe. É também um chamado para quem permaneceu aqui e, em meio à correria da vida, deixou de olhar para a própria cidade com os mesmos olhos. Voltar para casa é reencontrar pessoas, revisitar histórias, fortalecer laços e lembrar que pertencemos a um lugar que ajudou a formar quem somos. Enquanto existir um capelinhense disposto a cruzar estradas para rever sua terra, ou alguém daqui disposto a redescobrir as próprias raízes, a Festa do Capelinhense Ausente continuará cumprindo a missão de lembrar que sempre existe um caminho de volta para casa.
Por Luiz Fernando Barbosa | Imagens Reprodução Internet












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