COLUNA SEMANAL | Aqui dentro o sol brilha demais

Aranãs FM

É pelos olhos que a gente consegue medir o exato momento em que um sonho deixa de ser uma vontade e vira realidade. A gente tem a mania de achar que as grandes vitórias vão mandar aviso prévio e que estaremos completamente preparados para elas. Mas a verdade é que as maiores reviravoltas da vida são imprevisíveis. Na última sexta-feira, no meio de uma comemoração, através da tela estreita de um telefone celular, o olhar marejado de um rosto conhecido nosso provou exatamente isso.

O protagonista dessa história é um trabalhador da nossa terra: Douglas Ferracio. Desde outubro do ano passado, a internet tratou de rebatizá-lo como o Zezé de Capelinha. O vídeo que circulou no fim da semana exibia o Douglas com a voz embargada, os olhos cheios d’água, pronto a cantar. Do outro lado da chamada, escutando com a maior atenção do mundo, estava a sua maior inspiração: o próprio Zezé Di Camargo.

Para entender o peso dessa ligação, a gente precisa olhar para a raiz da coisa. A voz do Douglas não foi desenhada no computador de um estúdio caro. Ela é pura herança. Vem do pai e do avô, que eram violeiros de Folia de Reis. Vem de uma casa cheia, de irmãos, onde a música sempre ditou o ritmo. Ele aprendeu a soltar a voz cantando nas igrejas aqui da região, dividindo a agenda de pequenos shows com o trabalho do dia a dia. A arte ainda não paga todas as contas, mas, nesta sexta-feira, ela bancou o seu sonho.

Uma vez eu li, da jornalista e escritora Eliane Brum, uma frase que explica perfeitamente trajetórias como essa: “Todo o meu olhar sobre o mundo é mediado por um amor desmedido pelo infinito absurdo da realidade”. E a realidade tem dessas coisas. Ela é absurda não só nas dificuldades que impõe, mas principalmente na beleza daquilo que é improvável. O infinito absurdo da realidade é ver um rapaz do interior, que treinava em um violão antigo, ficar frente a frente com seu ídolo nacional no meio de um evento aqui na nossa cidade, provando que as grandes surpresas não escolhem endereço.

E existe um detalhe nessa história que amarra tudo de um jeito perfeito. A canção que Douglas escolheu cantar ali foi “Irmão da lua, amigo das estrelas”. Uma música que tem uma trajetória tão cheia de esperas quanto a vida de quem corre atrás do que quer.

Décadas atrás, o compositor da canção procurou Zezé com um rascunho dessa letra, sem conseguir terminar. Zezé pegou o papel, se isolou numa sala e finalizou a música. A aposta parecia garantida. Mas o que veio depois foi o esquecimento. A música precisou amargar anos na gaveta até que a internet e o público a resgatassem.

Tanto a história da música quanto o choro do Douglas nos ensinam algo fundamental. Uma lição ainda mais importante, que está escondida bem na letra da canção. “Aqui dentro o sol brilha demais”. E quando penso nesse “aqui dentro”, não penso apenas no sentimento de quem carrega um sonho. Eu penso aqui dentro das nossas raízes, nossa gente.

Nós temos a péssima mania de achar que o talento só é real quando vem de fora, quando tem selo de capital ou aparece na televisão. Muitas vezes, a gente paga ingressos caros para ver quem vem de longe, mas reclama de pagar o couvert artístico daquele músico que está tocando no bar da esquina. A gente esquece que o artista local é aquele que carrega a própria caixa de som, que afina o violão sozinho, que canta a noite inteira para animar a nossa festa. O Douglas é a prova viva de que a gente não precisa esperar o Brasil inteiro reconhecer um talento para só então dizermos que ele é bom.

Aqui nas nossas calçadas, nos nossos bares, nos nossos eventos, o sol brilha demais. Nós temos estrelas gigantescas. Artistas de carne e osso que dão um duro danado na vida real para sustentar a família e que merecem, antes de qualquer curtida de fora ou validação da internet, ser aplaudidos e valorizados por nós mesmos.

A gente não tem o menor controle sobre a hora em que as coisas vão acontecer para o resto do mundo. O nosso único dever é não parar de fazer a nossa parte. Para quem sonha, é continuar afinando o violão e preparando a voz. Porque uma hora o sonho atende a ligação.

Por Luiz Fernando Barbosa | Imagens e vídeos reprodução Redes Sociais

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