COLUNA SEMANAL | O medo de ter cabeça

Aranãs FM

Dias atrás eu li uma pesquisa que dizia que a saúde mental ultrapassa câncer e se torna a maior preocupação dos brasileiros, com dados de um levantamento da Ipsos, realizado em 30 países. Para 52% dos entrevistados, a mente doente é hoje o principal problema de saúde do país. E talvez isso diga muito menos sobre doenças e muito mais sobre a época em que estamos vivendo.

Houve um tempo, e não faz tanto tempo assim, em que o nosso maior pavor residia apenas na falha da máquina física. O susto de um caroço, o resultado alterado de um exame de sangue. A gente temia o que podia tocar, o que podia ser cortado ou medicado. Hoje, o assombro mudou de andar. O que essa estatística nos mostra é algo muito mais profundo: nós passamos a ter medo de ter cabeça.

Ter cabeça, hoje, virou esporte radical. É conviver vinte e quatro horas por dia com um inquilino que não dorme, que rumina o passado, que sofre por um futuro incerto e que é bombardeado por um presente que pisca na tela do celular. Nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão sobrecarregados. Existe uma pressa permanente atravessando a vida moderna. A necessidade constante de responder rápido, produzir mais, acompanhar tudo, estar disponível o tempo inteiro e parecer emocionalmente estável no meio do caos.

O Brasil é o terceiro país do mundo que mais pensa no próprio bem-estar mental. Nós estamos, coletivamente, exaustos de nós mesmos. Isso também é reflexo das mudanças aceleradas no modo como vivemos e nos relacionamos com o mundo. Como observaram os responsáveis pela pesquisa, a pandemia foi um dos grandes gatilhos desse processo. O ano de 2020 nos trancou em casa e nos obrigou a conviver, por mais tempo do que estávamos acostumados, com os nossos próprios pensamentos, medos e inseguranças. O vírus perdeu força com o tempo, mas os impactos emocionais permaneceram. E alguns grupos sentem isso de maneira ainda mais intensa. Entre as mulheres, 60% relatam preocupação com a saúde mental, número que ajuda a explicar a sobrecarga acumulada por jornadas múltiplas de trabalho, cuidado e responsabilidade. Entre os jovens, os índices também chamam atenção e revelam uma geração pressionada a dar conta de tudo cedo demais.

A chamada Geração Z chega à vida adulta já cansada. É uma juventude que acorda diariamente com a angústia crônica de que o tempo está acabando. Existe hoje a ilusão perversa de que, aos vinte e poucos anos, é preciso ter a vida resolvida: a empresa de sucesso, a casa mobiliada, a carteira de motorista tirada, o carro próprio, independência financeira e uma felicidade suficientemente bonita para ser exibida nas redes sociais. São jovens que sabem mais sobre Ozempic e outros medicamentos usados para fins estéticos, quase sempre apresentados por influenciadores e não por médicos, do que sabem lidar com as próprias emoções.

Aos poucos, fomos criando uma cultura em que o sofrimento emocional deixou de ser exceção e passou a fazer parte da rotina. A ansiedade virou traço de personalidade. O cansaço virou demonstração de esforço. Dormir pouco passou a soar como sinal de produtividade. Existe quase uma culpa coletiva em desacelerar.

As filas de espera, que 43% dos brasileiros apontam como o maior gargalo do sistema de saúde, não são mais apenas para aferir pressão ou buscar um anti-inflamatório. São filas de pessoas pedindo ajuda para conseguir respirar sem que o peito aperte do nada.

A crônica do nosso tempo nos mostra que o desafio agora não é apenas curar o corpo, mas transformar a nossa própria mente num lugar habitável novamente. Talvez o maior erro do nosso tempo tenha sido transformar o excesso em modelo de vida. Excesso de informação, de cobrança, de comparação, de estímulos e de pressa. Nenhuma mente foi feita para funcionar sem pausa. Precisamos reaprender o valor do silêncio, do descanso e do tempo natural das coisas. Precisamos tratar a angústia como questão de saúde pública. O esgotamento emocional não pode continuar sendo tratado como uma característica normal da vida adulta.

Afinal, a nossa própria cabeça não pode ser o lugar que a gente mais teme visitar.

Por Luiz Fernando Barbosa | *Os dados utilizados nesta coluna foram extraídos de levantamento da Ipsos divulgado pelo g1 em outubro de 2025.

 

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