
Mãe não morre nunca. Quem eternizou essa frase, traduzindo um sentimento universal, foi Carlos Drummond de Andrade, em sua poesia Para Sempre. E talvez a eternidade nunca tenha sido tão bem explicada quanto quando associada à figura de uma mãe. Porque mães possuem essa estranha capacidade de permanecer. Permanecer no gesto, na memória, no jeito de falar que herdamos sem perceber, numa mania exagerada que jurávamos nunca repetir, mas repetimos. Elas permanecem até mesmo no silêncio.
Olhando de fora, como quem é filho, percebo que existe algo quase sobrenatural na maternidade. E não falo desse romantismo barato de comerciais de televisão ou das legendas prontas de rede social. Falo daquilo que acontece no invisível dos dias comuns. Da mulher que é cheia de medos e desesperos, mas aprendeu a carregá-los sozinha para não assustar. Da que sente o mundo desabar, mas ainda assim sua maior preocupação é se o filho já comeu. Daquelas que têm tantos pedidos, tantas súplicas e apelos, mas que antes rogam, em oração silenciosa, pelas suas crias.
Mulheres com o estranho costume de diminuir as próprias dores para tentar proteger os outros. E, às vezes, acontece de a gente perceber isso tarde demais. Tarde quando nota que aquele prato favorito não surgia magicamente sobre a mesa. Que a roupa limpa não aparecia dobrada por milagre. Que existia alguém acordando mais cedo, dormindo mais tarde e, muitas vezes, desistindo de si para que aquele lar continuasse existindo. E perceba que digo lar, não casa. Porque casa é estrutura física. É parede, telhado, janela, endereço. Lar não. Lar é presença. É cuidado. E quase sempre existe uma mãe sustentando tudo isso. Talvez seja por isso que mãe permaneça tanto. Porque antes mesmo de construir uma casa, ela constrói aquilo que fica quando todo o resto falta.
Existe dor em se abandonar pelo outro. Mas acredito que as mães não enxergam assim. Porque, para elas, amar nunca pareceu perda. Enquanto o restante do mundo entende renúncia como ausência de si, mães parecem compreender que a maternidade não as diminuiu, apenas as transformou em alguém que agora também existe no outro. Talvez seja essa a compreensão que surpreende quem apenas observa a maternidade de fora: a de que parte do que elas se tornaram nasceu justamente com os filhos. E por isso façam tudo com tanta naturalidade. Não se espera reconhecimento ou aplauso. Apenas amam. E seguem.
Quem sabe a maternidade seja justamente isso: a capacidade de permanecer inteira dentro da vida de alguém. E por isso mães nunca vão embora por completo. Deixam muito delas naquilo que somos. E claro, mães não deveriam morrer. Há presenças que parecem fundamentais demais para acabarem. Está aí mais um ato quase sobrenatural da maternidade. Elas passam a vida inteira nos ensinando presença para que consigamos aprender a suportar a ausência.
E então entendemos o que escreveu Carlos Drummond de Andrade. Porque chega um momento em que toda pessoa percebe que mãe não morre nunca. Ela apenas deixa de ser vista para continuar existindo dentro da gente.
Por Luiz Fernando Barbosa











